A Ferro e Fogo

Category: sucessão

A Ferro e Fogo

Disciplina é fator determinante em processo de continuidade na Minasligas, família empresária homenageada em 2019

A homenagem é resultado de um processo estruturado em 2008, com envolvimento de duas gerações dos três núcleos familiares. De acordo com Wagner Teixeira, sócio da höft, a Minasligas foi escolhida a partir de uma série de critérios que demonstram que a condução do plano de continuidade vem transcorrendo de maneira evolutiva. “É uma família extremamente disciplinada e isso reflete em seu processo de estruturação da governança. Desde o início da elaboração do Protocolo Societário, as pessoas se dedicaram a realizar as etapas combinadas nos prazos estipulados. E houve um envolvimento crescente para que esse propósito fosse cumprido”, comenta.

“Ser homenageado este ano foi um fato que trouxe alegria à família. É uma motivação para continuar nesse caminho, que todos da família entendem como muito importante para manter essa sociedade”, diz Felipe Simões Zica, diretor comercial e presidente do Conselho Familiar Societário (CFS).

Segundo ele, a história de família de seu pai e de seus tios é marcada pela superação. “Eles vieram de uma família numerosa, de 15 irmãos, e a mãe deles, a minha avó, faleceu precocemente. O pai deles, meu avô, junto com as suas filhas mais velhas, minhas tias, criaram todos os filhos com muita abnegação. Como os valores de educação sempre foram muito fortes, meu avô conseguiu conduzir muito bem a família, mesmo com a perda prematura da esposa. Esse espírito de família é o principal legado que meu pai e tios receberam dos pais dele”, conta Felipe.

Esse mesmo espírito falou alto em outro momento de perda na família. Em março de 2008, o sócio fundador José Rodrigo Machado Zica (pai de Felipe), faleceu. Como era uma liderança muito significativa na empresa, a família considerou ser fundamental a união de todos os núcleos para levar o negócio adiante.

“Foi constatada a necessidade da implementação das práticas de governança corporativa e estudar como se daria a sucessão”, conta Tadeu Machado Zica, um dos fundadores. “Trabalhamos os três pilares: empresa, família e sociedade, que originou o nosso Protocolo Sócio-Familiar, em que temos as regras da família e da sociedade, além dos documentos societários previstos em lei”, diz.

Esse momento gerou uma nova visão nos núcleos familiares. “Os membros da família aprenderam a separar família, empresa e patrimônio, aprendendo a ser sócios”, comenta Sandra, esposa de José Rodrigo.

Representantes da primeira e da segunda gerações, de três núcleos societários se envolveram nessa fase de repensar o modo de atuação dali para frente. “A principal conquista, a meu ver, foi o amadurecimento dos sócios”, analisa Felipe, da segunda geração. “O sócio bem educado no tema governança familiar é valorizado pelo seu papel de sócio, ele entende o contexto da empresa e contribui muito, mesmo não atuando no dia a dia da empresa. Criar um ambiente de prestação de contas e participação dos sócios ajuda muito para que a evolução e os desafios de qualquer empresa sejam compreendidos e apoiados pelos sócios.”

Ele conta que essa fase se desenvolveu em ritmo diligente, com reuniões periódicas. “A redação do Protocolo Sócio-Familiar foi escrita palavra a palavra pelo grupo de trabalho e validada com os núcleos.”

A situação exigia uma nova postura, logo adotada pelos familiares. “O desafio foi saber dialogar, trocar opiniões, colocar o próprio ponto de vista e entender o ponto de vista do outro. Aprendemos a conversar como sócios. Os membros da primeira e da segunda gerações aprenderam a se relacionar como sócios. Foi uma experiência muito rica”, considera Felipe.

Percepção similar tem o sócio fundador Tadeu: “Tivemos oportunidade de conversar abertamente sobre todos os aspectos da sociedade e da família que poderiam vir a impactar a empresa. Com o comprometimento de todos, buscamos e conseguimos o consenso para chegar aos documentos finais. Mesmo após a finalização dessa fase, continuamos com reuniões regulares, sempre buscando o consenso na tomada de decisão”.

Felipe conta que, ao fazer de forma nítida a separação entre empresa, patrimônio e família, os envolvidos na empreitada passaram a seguir a máxima de que “quem tem sócio tem patrão, tem que dar satisfação”.

No processo de estruturação da governança, foi instituído o Conselho Familiar Societário (CFS), que trata de assuntos estratégicos ligados à empresa, ao patrimônio e à família, com sócios de cada núcleo familiar das duas primeiras gerações.

O Conselho de Administração passou a se reunir mensalmente com a presença de conselheiros familiares e independentes. “Implantamos também o Portal da Governança, onde o Orçamento e Acompanhamento Orçamentário da Empresa, dentre outros documentos, são postados para consulta regular dos sócios”, conta Felipe.

O executivo explica que a implantação desses processos se deu de forma gradativa, “subindo os degraus” da governança: “Um passo de cada vez, à medida que as demandas foram existindo, mas de maneira dinâmica”, relata.

Felipe considera que o principal desafio a partir de agora é o envolver a terceira geração, que tem membros com idades de um a 24 anos. Ele conta que a mobilização para essa finalidade já está acontecendo. “Ano passado, criamos um vídeo, em que membros da primeira, segunda e terceira gerações deram depoimentos sobre o que era a Minasligas para eles. Esse material é muito rico para entendermos como os valores são muito fortes para a primeira e a segunda gerações. O desafio é passar esses valores para a terceira geração”, observa.

Felipe enfatiza que os valores estiveram presentes desde a origem da Minasligas. “O legado que recebemos de ética, dedicação, determinação, austeridade, união, muita fibra, estão diretamente ligados à história de vida da nossa família.” (veja no quadro Uma família com liga).

O CFS tem algumas iniciativas planejadas para 2019 que visam a fortalecer o vínculo da terceira geração. Uma delas é uma programação que inclui viagem de final de semana, visita à fábrica e palestras.

Com isso, a Minasligas vai traçando seu caminho rumo à perenidade, com desafios e aprendizados, que vão deixando marcas nas pessoas envolvidas nessa experiência. “Dentre os aprendizados, ao longo do processo de sucessão, destaco a necessidade e importância de buscar o consenso, de se colocar na posição dos outros membros, e de ter a liberdade e sinceridade de expor suas posições. Além da necessidade de respeitar a empresa como negócio coletivo, tratando as demandas da empresa de maneira racional e profissional”, avalia Tadeu.

Para Felipe, a governança é uma forma de assegurar não só a continuidade do negócio, como também de gerar uma espécie de autonomia da organização. “A família cresce numa velocidade maior que o negócio, assim é importante que os fundamentos de governança fiquem cada vez mais consolidados, junto com o desenvolvimento da empresa, para que a empresa se perenize, independente da família, transformando-se numa instituição. O desafio é manter a harmonia da família, sempre respeitando e contribuindo para o desenvolvimento do negócio”, explica.

O reconhecimento deste ano resulta do amadurecimento de um processo que já sinalizava boas práticas. Tanto que a Minasligas constava entre as oito famílias empresárias reconhecidas em 2018 como exemplos de evolução em seus processos de continuidade.

Foram mais de dez anos, com o envolvimento dos familiares, exercitando o relacionamento societário, dialogando, ampliando conhecimentos, praticando novos formatos de governança; desta transformação consolidou-se a família empresária. Wagner Teixeira cita outros fatores que reforçaram a escolha. “Existe um reconhecimento muito forte ao legado dos fundadores. A comunicação, é também um ponto de atenção da família, se envolveram com a criação do Portal da Transparência, com documentos importantes disponíveis para a consulta dos sócios e familiares. É um portal que reúne informações familiares, empresariais e patrimoniais. Uma medida que evita ruídos e minimiza a margem para desentendimentos”, observa.

Segundo Felipe, a homenagem só reforça o propósito da família de seguir o rumo planejado. “Esse é um trabalho contínuo, nós temos escalado gradativamente os degraus da governança. A cada ano, vamos tendo a consciência da importância de subir o próximo degrau. Este ano já tivemos uma evolução em relação ao ano passado e, com certeza, no ano que vem sentiremos que houve evolução em relação a 2019. Há várias tarefas pela frente para continuarmos a evoluir”, diz.

Nesse período de um ano, Felipe conta que o foco se voltou mais para a preparação da terceira geração. “Já houve um evento, quando inauguramos o nosso novo escritório em Belo Horizonte”, relata.

 

Uma família com liga

A Minasligas foi fundada em 1976, mas sua história começa bem antes de o primeiro forno ser ligado. Em 1965, os irmãos José Rodrigo e Petrônio Machado Zica, compraram uma tornearia mecânica em São Paulo e a transferiram para Belo Horizonte: a Delp. A pequena oficina começou fabricando parafusos, porcas e outras peças. Com o crescimento das atividades, ampliação da prestação de serviços e produção, o irmão Tadeu foi convidado a ingressar no negócio.

Em 1971, já com sede própria no Centro Industrial de Contagem, José Carlos, o irmão mais velho, também aderiu ao empreendimento. A primeira metade da década foi marcada pela expansão dos negócios.

Em 1976, por indicação de um amigo, os irmãos tomaram conhecimento de um projeto aprovado pela Sudene (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, mas que abrangia uma parte de Minas Gerais) para a fabricação de ferroligas. “Este projeto veio ao encontro do nosso planejamento de diversificação das atividades”, conta Tadeu. O cunhado Paulo Cezar Fialho, que tinha experiência no segmento de ferroligas, foi convidado a fazer parte da sociedade, que daria início à nova indústria.

Na época da montagem da Minasligas, o foco era conseguir colocar o negócio em operação, empreitada na qual que todos se envolveram. “Os diferentes núcleos familiares, no processo de constituição, a meu ver, nem eram vistos como núcleos. Eram os irmãos e o cunhado Paulo, com filhos pequenos com um objetivo comum: fazer aquele negócio dar certo”, diz Felipe Simões Zica, diretor comercial e presidente do Conselho Familiar Societário.

A empresa ganhou robustez de forma relativamente rápida. “Os fundadores foram arrojados e imprimiram um crescimento forte da capacidade produtiva na década de 1980. Logo em seguida, diversificaram o mix de produtos”, diz Felipe “A Minasligas conseguiu rapidamente construir uma ótima reputação no mercado pela qualidade dos seus produtos e atendimento.”

Em 1998, houve uma reestruturação societária, resultando na configuração atual, com três núcleos societários. O sócio fundador Tadeu Machado Zica explica que ela foi necessária para melhor atender as demandas dos núcleos familiares. “Nesse momento, José Rodrigo, Paulo e eu assumimos a gestão da Minasligas. Em seguida, começou mais efetivamente a participação da segunda geração na empresa, atuando como estagiários e posteriormente como funcionários em diversas áreas. Voltamos a investir na expansão e modernização industrial, buscando as certificações técnicas e da qualidade”, relembra.

Atualmente, a Minasligas têm seus produtos utilizados por indústrias brasileiras, bem como em outras dos cinco continentes para onde exporta.

O que fica dessa história? Sandra, esposa do fundador José Rodrigo Machado Zica, responde: “O legado é que sem organização, dedicação e persistência nada se constrói”.