Família Benchimol

Category: sucessão

“O mundo marcha para aquele que mais souber”

A frase do pioneiro Isaac Israel Benchimol ficou gravada como um ensinamento para os vencedores do Prêmio Família Empresária 2017, à frente da rede de lojas de departamento Bemol e da distribuidora de gás Fogás

Presentes na região norte do Brasil, a Família Benchimol e suas empresas – a Bemol e a Fogás – são reconhecidas como bons exemplos de uma gestão baseada em valores. As empresas contam com 3.000 colaboradores, são líderes regionais em vendas em seus respectivos mercados. Bemol e Fogás são marcas fortes, reconhecidas e se destacam pela conquista da preferência de seus consumidores, tendo recebido vários prêmios de mérito empresarial. Vencedora do Prêmio Família Empresária 2017, a atuação da família e da empresa se baseiam nos princípios da integridade, respeito, economia, energia e melhoria contínua (ver diagrama cultural).

Propósito, valores e visão

Isaac Benchimol nasceu no Brasil, descendente de uma família de judeus marroquinos, que havia imigrado atraída pelo progresso no auge do ciclo da borracha. Ele era ainda criança quando seu pai faleceu, e teve que voltar a Tanger, Marrocos para viver com sua avó. Retornou ao Brasil aos 13 anos, idade em que, de acordo com a cultura judaica, o jovem passa a ser considerado responsável por seus atos. Aqui construiu sua história, casou-se e teve oito filhos, sempre fiel a seus valores de origem. Sua esposa Nina tinha um objetivo: “meus filhos serão doutores”. E, assim, a família que cresceu nos seringais da Amazônia conquistou seu espaço na vida acadêmica, no mundo empresarial e nas ações de investimento social. Todos os filhos se formaram e corresponderam ao desejo materno: professoras, médicos, farmacêutico, engenheiro, advogado, sociólogo, economista; alguns com mais de uma graduação, todos desenvolveram suas carreiras.
O principal marco desta história se deu em agosto de 1942 com a fundação da Bemol pelos irmãos Israel, Samuel e Saul Benchimol, na cidade de Manaus. Em 1956 nasceu a Fogás. O propósito da Família Benchimol é ser forte e unida em seus princípios, e modelo de empreendimento de sucesso, buscando desenvolver suas tradições, valores e talentos em prol das futuras gerações e criando uma cultura em que cada um é maior pela existência dos demais. As empresas desenvolvem anualmente cinco iniciativas para nortear as atividades de seus funcionários. Para 2017, as diretrizes são as seguintes: “Enriqueça a experiência dos clientes; Contribua para o crescimento de sua equipe; Digitalize para maior produtividade; Adote as melhores práticas para reduzir custos; Construa um bom nome.”
Busca-se uma total transparência entre os sócios e questões passadas são tratadas na perspectiva de construir um relacionamento saudável no futuro. O acordo societário foi firmado em 2003 e, desde então, passa por revisões periódicas, tendo sido construído a partir de uma série de reuniões entre sócios e herdeiros. A Família Benchimol tem uma longa tradição de estudo e aprendizado acadêmico que convive lado a lado com o exercício da gestão dos negócios. Um de seus fundadores, Samuel, deixou mais de 40 livros publicados e cerca de 70 artigos sobre a Amazônia, com destaque para um denominado “Lembranças e Lições de Vida”, em que relata a história da empresa e faz sugestões de conduta às novas gerações. A família preza pela manutenção de sua história e para isso possui um extenso arquivo de vídeos, livros e documentos com relatos familiares e empresariais, registros fotográficos de mais de 70 anos – armazenados em uma biblioteca – e livros de culinária marroquina com pratos feitos por familiares. 

Formação das futuras gerações e governança

A estratégia da Família Benchimol é iniciar a preparação de sócios e herdeiros ainda na infância a partir do programa Colaborador Mirim, com atividades dentro das empresas, de forma a promover o aprendizado e criar envolvimento emocional com as organizações. Como ainda estão presentes, um dos sócio-fundadores e membros de 1ª geração promovem a integração com ocasiões em que os mais velhos contam histórias familiares e da empresa para os mais jovens. Em uma dessas reuniões, Alice Benchimol, uma das irmãs dos fundadores, relatou as dificuldades enfrentadas na época do ciclo da borracha; essa é uma forma que os Benchimol veem como reforço aos princípios que guiaram a fundação da empresa e que devem continuar com as novas gerações. Também estão disponíveis vídeos com depoimentos de membros da 1ª, 2ª e 3ª geração. Além disso, a origem cultural e religiosa é uma forma de preservar o elo comum entre os familiares, para o qual contribuem também preceitos fortes de educação e a realização de atividades religiosas associadas a eventos empresariais e familiares.
Seguindo a tradição familiar de investir em educação e conhecimento, grande parte dos herdeiros desenvolveu sua trajetória acadêmica nas melhores instituições nacionais e internacionais. Há uma preocupação com o aprendizado contínuo e com a formação e atualização dos familiares para o papel de sócios, atuais e futuros. Há incentivo para que sócios, cônjuges e herdeiros participem de programas de formação, tenham acesso a livros de temas diversos, e participem de congressos e eventos. A família também valoriza o intercâmbio de experiências com outras famílias empresárias, promovendo encontros e visitas, além de receber famílias que tenham interesse em temas de continuidade. Foi também criado um informativo eletrônico mensal com notícias da família e das empresas, e grupos de sócios nas mídias sociais como forma de garantir o fluxo de informações entre sócios, cônjuges e herdeiros.
A estrutura de governança da Família Empresária Benchimol é composta por uma Assembleia Geral de Sócios, o Conselho de Família e o Conselho de Administração; todos trabalhando dentro de um sistema com transparência e dentro das suas atribuições. O Conselho de Família conta com membros dos três núcleos dos fundadores e tem como missão organizar atividades de formação e integração entre familiares – desde jantares até atividades menos tradicionais, como arvorismo e aulas de pintura –, preservar a história, manter um informativo sobre atividades, decidir sobre doações incentivadas e não incentivadas, resolver situações comportamentais, de entrada, saída ou licença de sócios. Esse conselho tem um orçamento próprio e segue o organograma dos órgãos de representação da família e de gestão. Vale reforçar que os valores de origem têm uma importância maior do que as pessoas e os sócios individualmente, uma premissa que coloca o interesse coletivo acima dos interesses individuais.
O Conselho de Administração realiza quatro reuniões ordinárias anuais. É composto por 13 membros, dos quais 11 são sócios, gestores ou não gestores, e dois conselheiros independentes; o  fórum tem como atribuições as decisões sobre investimentos e o acompanhamento da estratégia e dos resultados das empresas. A estrutura de gestão busca sempre o aperfeiçoamento de suas práticas. As políticas de seleção, contratação e remuneração são compatíveis com o mercado, e o Programa de Participações em Lucros e Resultados, instituído desde 1994, distribui até 9% dos lucros das empresas aos funcionários e busca alinhar os interesses dos colaboradores com os da gestão.

 

Práticas empresariais

Parte dos lucros obtidos são distribuídos anualmente aos sócios conforme deliberação da Assembleia de Sócios e do Conselho de Administração após considerar, prioritariamente, as oportunidades de investimento, a modernização das empresas e as exigências para se competir em mercados que evoluem com rapidez. É relevante observar que durante os primeiros 40 anos de existência das empresas nenhum lucro foi distribuído aos sócios, tendo sido reinvestidos em benefício das organizações. Esse gesto dos fundadores teve enorme impacto na capitalização e na longevidade das empresas que, até hoje, adotam postura financeira conservadora.
A gestão estratégica das organizações prevê resultados a longo prazo e busca principalmente a lealdade dos clientes, fornecedores e colaboradores. Considera-se que a busca da lealdade é instrumento essencial na preservação de custos baixos, alta autonomia gerencial e satisfação de clientes. Há clara preferência pela promoção de colaboradores internos, priorizando-se sempre mérito e desempenho em vez de contratações externas. Esta prática resulta em funcionários longevos e dedicados às organizações, que evoluem como parte de uma grande família. É comum ver colaboradores em todos os níveis da organização alcançarem 10, 20 ou 30 anos de trabalho. Há dois casos de colaboradores que chegaram aos 50 anos de trabalho nas organizações.
Familiares podem ser admitidos nas empresas desde que tenham curso superior completo, atendam às necessidades da empresa, sigam o diagrama cultural e tenham aprovação do Conselho de Família. O atual acordo societário prevê regras de aposentadoria aos 65 anos para todos gestores e aos 77 anos para conselheiros cujos sucessores são escolhidos de forma planejada. As empresas também contribuem com doações para diversas organizações e projetos. As chamadas doações não incentivadas incluem bolsas de estudo para auxiliar na formação e educação da comunidade escolar judaica local, projetos com escolas e de interesse da preservação da história familiar. Já as incentivadas são realizadas pelas Leis Rouanet, da Infância, da Juventude, do Idoso e de Incentivo aos Esportes.